Hoje saiu em todos os jornais o resultado do ENEM do ano passado. Como sempre, a mídia vê nesse exame aquilo que ele não pretende ser: um ranking das “melhores”e “piores” escolas. Se você tiver a paciência de ler com calma a proposta e os objetivos do ENEM no site do INEP, vai ver que essa avaliação foi montada com o seguinte princípio:

O Enem é um exame individual, de caráter voluntário, oferecido anualmente aos estudantes que estão concluindo ou que já concluíram o ensino médio em anos anteriores. Seu objetivo principal é possibilitar uma referência para auto-avaliação, a partir das competências e habilidades que estruturam o Exame.

O modelo de avaliação adotado pelo Enem foi desenvolvido com ênfase na aferição das estruturas mentais com as quais construímos continuamente o conhecimento e não apenas na memória, que, mesmo tendo importância fundamental, não pode ser o único elemento de compreensão do mundo.

Diferentemente dos modelos e processos avaliativos tradicionais, a prova do Enem é interdisciplinar e contextualizada. Enquanto os vestibulares promovem uma excessiva valorização da memória e dos conteúdos em si, o Enem coloca o estudante diante de situações-problemas e pede que mais do que saber conceitos, ele saiba aplicá-los.

O Enem não mede a capacidade do estudante de assimilar e acumular informações, e sim o incentiva a aprender a pensar, a refletir e a “saber como fazer”. Valoriza, portanto, a autonomia do jovem na hora de fazer escolhas e tomar decisões.

Em síntese, uma das idéias originais do exame era a de permitir ao aluno um diagnóstico de um certo campo de competências cognitivas, ou seja: como estava a sua capacidade de leitura, interpretação, análise, escrita, entre outras.  Faz sentido um ranking disso? Existem outros exames que  foram montados para avaliar escolas, e que são instrumentos mais adequados para isso (apesar que, para mim, essa idéia de ranquear escolas já é algo em si com pouco sentido). Além disso, outros problemas que tenho visto nos últimos anos:

1 - Muita escolas começaram, por causa desses rankings, a fazer com seus alunos verdadeiros treinamentos pra que eles possam ir bem na prova do ENEM  para que, com isso, as escolas apareçam melhores colocadas no ranking; não preciso nem dizer o quanto isso não tem nada a ver com o espírito do exame;

2 - Como comparar escolas com projetos pedagógicos tão distintos? Como comparar escolas que não aceitam alunos com dificuldades pedagógicas com aquelas que tem projetos de inclusão e de trabalho com uma diversidade de tipos de alunos?

3 - Como criar um ranking a partir de uma prova que tem variado tanto de estilo e de exigência nos últimos anos?

4 - O problema não é avaliar: acho que as escolas e as políticas educacionais devem ser avaliadas e estudadas para que possamos provocar mudanças em um quadro desolador da educação nacional. A questão é como, para que e o que fazer com os resultados dessa avaliação.

5 - Você sabia que  FUVEST tem um relatório individual de cada aluno e sabe de quais escolas eles se originam? Porém, até onde eu sei, a FUVEST nunca divulgou esses dados, muito menos em forma de ranking. Já pensou no rebuliço e na má compreensão dos dados que isso provocaria?

Essa é uma discussão longa e que vale a pena aprofundarmos nos próximos dias. Por hora, vale a pena olhar para os princípios do ENEM e ver o quanto a idéia de ranqueamento é incongruente com a proposta original.